
Sessões de autógrafo, filas quilométricas e muito post nas redes sociais. Assim transcorrem as últimas semanas para o francês Jordan Bardella, 30 anos, que embarcou em uma turnê para promover seu segundo livro, Ce Que Veulent les Français (“o que os franceses querem”), com toda a pinta de campanha eleitoral. Incumbido da missão de dar feições modernas a uma sigla que carrega consigo o peso de seu criador, Jean-Marie Le Pen (1928-2025), que costumava dizer que o Holocausto foi um “detalhe” na Segunda Guerra, Bardella adentrou a arena política como uma opção que suaviza a carga ao unir ingredientes em alta: fenômeno nas redes e sempre com um bom terno, ele sustenta nos palcos que ocupa (e adora) um discurso de extrema direita menos furioso, mas muito afinado com o de seus colegas de matiz ideológico, oferecendo uma mescla de populismo econômico e nacionalismo radical. Como líder do Reagrupamento Nacional (RN), tornou-se o mais popular político na França depois de ser posto sob os holofotes por Marine Le Pen, a filha de Jean-Marie, hoje inelegível sob acusação de desvios de verba pública.
Um termômetro de sua ampla aceitação veio em uma recente sondagem para as próximas eleições presidenciais: fossem elas hoje, Bardella venceria em qualquer cenário com larga vantagem — um ineditismo na nação que ergue muralhas toda vez que a extrema direita dá sinais de vitalidade, como agora o faz com vigor inédito. Por três vezes, quase chegaram lá, mas aí o chamado cordão sanitário, que vem freando sua marcha Europa afora, entrou em ação. Nunca, porém, o caldeirão de variáveis lhes foi tão favorável. Já o era antes de Marine passar o bastão — ela aparecia 10 pontos à frente dos rivais. Mas Bardella dobrou a margem, com 36% de intenção de votos no primeiro turno, segundo o Instituto Odoxa. Derrubaria os candidatos da esquerda e nomes da centro-direita que compuseram o vasto rol de primeiros-ministros escolhidos e logo caídos ao longo da gestão do presidente Emmanuel Macron.
Como dois anos são uma vida toda na política, e muitos eventos provavelmente ainda farão o povo lotar a Praça da República, em Paris, é preciso cautela. Mas o sucesso do aspirante ao Palácio do Eliseu não é fruto de algo fortuito. Do lado de seus oponentes, estão todos enredados em tramas das quais é difícil escapar. A esquerda até ficou na dianteira nas eleições legislativas de 2024, mas o bloco é um saco de gatos escolados que vivem às turras. “A divisão implode as chances de uma candidatura unificada”, observa o historiador inglês Paul Smith, da Universidade de Nottingham. Enquanto isso, Macron, patinando em sofríveis 21% de popularidade, atravessa uma tormenta sem fim. De tão desgastado, pena para aprovar o orçamento de 2026 e não conseguiu nem manter de pé a reforma da previdência, o único feito relevante do atual mandato.
Em uma França farta da velha política, mesma tendência que vem alçando políticos como Bardella em outros cantos do planeta, ele emerge sem nunca ter ocupado cargo público (hoje é deputado da União Europeia), o que se converteu em trunfo. Filho de italianos (o sobrenome é pronunciado à moda francesa, Bardelá), foi criado na periferia de Paris, onde vive a população de baixa renda. A militância na extrema direita começou cedo, aos 16 anos, e sem distrações — abandonou o curso de geografia na Sorbonne e agora explora o fato de não ter diploma como um sinal de que não compactua com as elites. No TikTok, onde conta 2 milhões de seguidores, ora posta fotos pescando, ora malhando ao som de funk.
Ele tem feito o que pode para se desgrudar do peso associado ao sobrenome Le Pen. Não faz muito tempo, visitou o memorial do Holocausto em Israel, para deixar translúcido que nada tem a ver com as inaceitáveis considerações do fundador do RN sobre o nazismo. Mas que ninguém pense que Bardella não reúne os ingredientes inescapáveis dos líderes da extrema direita que florescem por aí. Além de promessas de passar a tesoura no orçamento, baixar impostos e atropelar a burocracia — tudo em tom épico —, ele agita a bandeira anti-imigração, dizendo que o “povo europeu pode sumir sob ondas migratórias” (está se referindo, claro, não aos de seu tipo, mas aos egressos de países mais pobres). O sumo de seu ideário ele elencou no novo livro, que só perde nas listas de mais vendidos para o último Asterix, no qual também expõe o lado negacionista do clima. E assim Bardella vai dando contornos a uma onda que já põe o mundo em alerta.
Publicado em VEJA de 5 de dezembro de 2025, edição nº 2973