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O que 100 dias não fazem numa situação de guerra. O mesmo Donald Trump que realizou o sonho israelense de um ataque conjunto contra instalações militares iranianas agora pressiona Israel a ponto de ter ameaçado abandonar o país à própria sorte se entrasse numa escalada de ataques ao Irã.

Detalhe fundamental: quem revelou isso foi o próprio presidente ou assessores próximos dele. Todos só falam, evidentemente, com o objetivo de aumentar a pressão sobre Israel. Os meandros das conversas com Benjamin Netanyahu foram revelados por Trump a um jornalista israelense com quem fala frequentemente, Barak Ravid – e também usa para mandar recados.

Relembrando a sequência de acontecimentos dos últimos dias para não perder o fio da meada: o Hezbollah intensificou ataques aéreos contra a região fronteiriça com Israel, forças israelenses retaliaram atacando uma posição dos xiitas libaneses em Beirute, não obstante houvesse um cessar-fogo, o Irã partiu para a represália com onze mísseis (interceptados) contra Israel e Trump entrou na dança, exigindo que o país não respondesse. Foi aí que fez a ameaça de abandonar Israel.

Sabendo que sofreria uma tremenda derrota perante a opinião pública interna e seus próprios aliados de ultradireita, Netanyahu tentou atender os dois lados. Aprovou uma represália contida contra alvos iranianos, mas depois cancelou um ataque subsequente quando os aviões de guerra já estavam na pista de decolagem.

INTERESSES DIVERGENTES

Existem precedentes históricos para as duas atitudes: acatar os mandamento dos Estados Unidos e também desafiá-los O analista Herb Keinon, do Jerusalem Post, evocou a atitude de Levi Eshkol, que era primeiro-ministro quando eclodiu a Guerra dos Seis Dias, há exatamente 59 anos. “Devo enfatizar a necessidade de que Israel não seja responsável pelo início de hostilidades”, advertiu o presidente americano da época, Lyndon Johnson, quando a tensão com os vizinhos árabes que pretendiam invadir Israel já havia chegado ao ponto máximo.

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Dois dias depois, Eshkol mandou desfechar o ataque preventivo – extraordinariamente bem sucedido, contra todas as expectativas. “Eshkol acreditava que Israel enfrentava uma ameaça existencial e que garantir os interesses do país tinham precedência até sobre os desejos de seu maior aliado”, relembrou Keinon.

Ele enumerou outros exemplos: Ronald Reagan não queria que Israel atacasse o reator atômico do Iraque em Osirak, em 1981 (e suspendeu temporariamente a entrega de caças F-16), e a atitude se repetiu em relação ao reator sírio que George Bush filho preferia administrar diplomaticamente. Imaginem como seria diferente a situação no Oriente Médio se Israel não tivesse resistido aos desejos dos presidentes americanos.

É natural que haja interesses divergentes entre os dois países, pois os Estados Unidos são uma superpotência que tem uma esfera de ação global e precisa levar em conta o jogo geopolítico nos países árabes , além de outros aliados muçulmanos, que quer manter sob sua esfera de influência. Mas não deixa de ser espantoso que Donald Trump, tendo decidido ir à guerra contra o Irã junto com Israel, agora pressione o aliado da maneira como está fazendo.

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‘ORGULHOSOS, FORTES’

Os analistas são praticamente unânimes sobre os motivos: Trump comprou muito facilmente a versão vendida por Netanyahu, de que o regime dos aiatolás desmoronaria, e o Irã acabaria virando um país amigo, numa espetacular mudança no tabuleiro. Agora, diante de uma guerra impopular e dos prejuízos causados pelo fechamento do Estreito de Ormuz, corre atrás de um acordo, anunciando que será selado a qualquer momento. Já chegou a dizer que estava demorando porque os iranianos “são orgulhosos, são fortes”.

Parece um mundo de cabeça para baixo: Trump chama Netanyahu de “louco” (com palavrão acompanhando) e os iranianos de fortes.

O clima reinante em Israel é de pessimismo. Disse no Times of Israel seu diretor, David Horowitz, em geral partidário de posições centristas: “Trump tenta amarrar as mãos de Netanyahu, enquanto naufraga a parceria que foi à guerra há 100 dias”.

Horowitz lembrou que, em 1991, Israel acatou os interesses americanos e não reagiu quando Saddam Hussein mandou uma chuva de mísseis Scud sobre o país. O objetivo era preservar a ampla aliança multinacional que George Bush pai havia costurado para livrar o Kuwait dos invasores iraquianos. Mas na época a ideia era cortar as asas de uma tirania, não encontrar um modo de acomodar os interesses de um adversário tão ou mais perigoso como o Irã. Poderá este adversário promover um racha entre Israel e os Estados Unidos? Não haveria vitória maior.



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