A Sabesp vai construir em Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, a primeira usina pública de dessalinização de água voltada ao abastecimento humano do estado. Com investimento previsto de R$ 56,4 milhões, a projeção é de que a estrutura amplie em 20% a oferta de água no município e ajude a enfrentar desafios relacionados ao crescimento populacional, à alta demanda turística e às restrições ambientais para captação de água doce.
A obra está prevista para ser concluída em dezembro de 2027. Segundo a companhia, a nova unidade terá capacidade para acrescentar 20 litros de água por segundo ao sistema de abastecimento local.
Em entrevista ao Metrópoles, o diretor de Engenharia e Inovação da Sabesp, Roberval Tavares, afirmou que a escolha de Ilhabela ocorreu porque o município apresenta características únicas dentro da área atendida pela companhia.
“Ilhabela é um município onde a água doce tem uma grande restrição de captação por ser uma ilha. Uma grande parte do território é área de preservação ambiental, então existem limitações para novas captações. Além disso, a perfuração de poços profundos não é tecnicamente viável”, explicou.
Segundo ele, o crescimento da população e a perspectiva de aumento da demanda nos próximos anos levaram a empresa a buscar uma alternativa diferente das utilizadas tradicionalmente no abastecimento público. Ele também explicou que, embora outros municípios do litoral também façam parte da área de atuação da companhia, Ilhabela foi o único que, dentro dos estudos técnicos realizados, apresentou um cenário em que a dessalinização surgiu como a melhor solução.
“Não é que nós escolhemos onde implantar uma dessalinizadora. O município demonstrou uma deficiência com relação à possibilidade de enfrentamento de restrições hídricas, e a solução adotada foi a dessalinização”, afirmou Tavares.
Funcionamento da usina
Ao contrário do que ocorre em alguns projetos internacionais, a unidade de Ilhabela não fará a captação diretamente no oceano. A água será retirada do Ribeirão Água Branca, em um trecho próximo à foz, onde a influência das marés torna a água salobra.
O processo utilizará a tecnologia conhecida como osmose reversa, a mais difundida em usinas de dessalinização ao redor do mundo. Por meio de membranas especiais submetidas a alta pressão, o sistema separa os sais dissolvidos da água, transformando-a em água potável.
Segundo o diretor da Sabesp, a utilização de membranas já é conhecida pela companhia em outros tipos de tratamento, mas será a primeira vez que a tecnologia será aplicada em São Paulo para produzir água destinada ao abastecimento público.
“O grande diferencial é justamente a utilização da osmose reversa para transformar essa água salobra em água doce para consumo humano”, afirmou.
A obra inclui sistemas de captação, bombeamento, reservação e tratamento, além das estruturas necessárias para integração ao sistema de abastecimento existente.
Reforço para períodos de alta temporada
A expectativa da companhia é que a nova oferta de água ajude principalmente durante períodos de maior pressão sobre o sistema, como feriados prolongados e a temporada de verão. Segundo a Sabesp, os cálculos de demanda consideraram não apenas a população atual, mas também o crescimento projetado para os próximos 10 anos.
Tavares afirmou, ainda, que o reforço deverá permitir maior equilíbrio operacional do sistema de abastecimento da cidade.
“Quando a obra estiver pronta, teremos 20 litros por segundo a mais de produção. Isso representa um aumento de 20% na oferta e vai ajudar principalmente nos períodos em que a população cresce significativamente”, disse.
Em épocas de grande movimentação turística, a população presente na ilha chega a triplicar em relação aos períodos de menor movimento.
Remédio caro, mas necessário
Embora amplamente utilizada em países com escassez hídrica, como Israel e outras nações do Oriente Médio, a dessalinização ainda é pouco empregada no Brasil para abastecimento público, principalmente pelo custo. No país, a tecnologia já é usada em locais como Ceará, Espírito Santo e Pernambuco.
Segundo a Sabesp, produzir água potável a partir de água salgada ou salobra exige consumo elevado de energia elétrica, o que torna a operação mais cara do que os sistemas convencionais de tratamento.
“O custo é superior ao de um tratamento convencional. A dessalinização utiliza muita energia porque é necessário pressionar a água através das membranas para retirar o sal”, explicou Tavares.
De acordo com o diretor, a operação da futura unidade deverá custar cerca de 30% mais do que um sistema convencional de produção de água. Apesar disso, a companhia afirma que o impacto financeiro será absorvido pela estrutura operacional da empresa e não deverá provocar aumento nas tarifas cobradas dos consumidores.
“Para uma cidade do porte de Ilhabela, isso não mexe o ponteiro da tarifa”, afirmou.
Questões ambientais
O projeto também envolve desafios ambientais frequentemente associados à dessalinização. Um dos principais é o destino da salmoura, resíduo concentrado em sal que sobra após o processo de separação.
Segundo Tavares, o material será devolvido ao mar conforme os parâmetros estabelecidos no licenciamento ambiental conduzido pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). Ele também afirmou que estudos ambientais foram realizados antes da aprovação do empreendimento, incluindo análises sobre possíveis impactos na fauna e nos ecossistemas marinhos.
Ainda de acordo com ele, a operação da usina também será acompanhada por monitoramentos permanentes relacionados tanto à qualidade da água produzida quanto aos resíduos gerados pelo processo.
A Sabesp acrescentou que todas as etapas necessárias de licenciamento foram cumpridas até o momento e que, após a conclusão das obras, solicitará a licença de operação para o início das atividades.
Ainda na temática ambiental, o representante da companhia também explicou que a implantação da usina faz parte de uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas, pautada na observação das alterações no comportamento histórico das chuvas.
“Nós acompanhamos os índices de chuva há mais de 50 anos e, nos últimos dez anos, observamos uma redução. Por isso, precisamos considerar esses novos cenários nos cálculos de engenharia”, disse Tavares.
O Metrópoles questionou se a decisão de construir a unidade em Ilhabela está relacionada à crise hídrica que atingiu a Região Metropolitana de São Paulo em 2014, mas Tavares negou. Segundo ele, o principal fator foi a combinação entre crescimento populacional e limitações para ampliar a oferta de água doce no município.
Além da estação de dessalinização, o projeto prevê a construção de um centro de educação ambiental aberto à visitação, com auditório e painéis fotovoltaicos destinados ao abastecimento energético da estrutura. A longo prazo, a expectativa da Sabesp é de que o sucesso da iniciativa possa ser medido pela capacidade de ampliar a segurança hídrica da cidade nos próximos anos.
“A implantação será bem-sucedida se conseguirmos entregar os 20 litros por segundo previstos e garantir água em quantidade suficiente para a população de Ilhabela”, afirmou o diretor.