A pressão por maior transparência na produção de alimentos tem acelerado a adoção de tecnologias de rastreabilidade na pecuária brasileira. Impulsionado principalmente pelas exigências da União Europeia, o setor busca mecanismos para comprovar a origem dos animais e registrar todas as etapas da produção, do nascimento ao frigorífico.

Para Thiago Parente, CEO da iRancho, a rastreabilidade vai muito além da simples identificação individual dos bovinos prevista pelo PNIB (Plano Nacional de Identificação de Bovinos e Bubalinos).

“O governo está criando uma espécie de CPF para cada animal. Isso é uma parte fundamental da rastreabilidade, mas não é a rastreabilidade em si. O desafio é acompanhar tudo o que acontece com esse animal ao longo da vida”, afirmou.

Segundo o executivo, a principal dificuldade da pecuária brasileira está na complexidade da cadeia produtiva. Um único animal pode passar por diversas propriedades até chegar ao abate, tornando difícil reconstruir seu histórico completo.

“Muitas vezes o bovino nasce em uma fazenda, passa por outra propriedade, vai para um confinamento e depois segue para o frigorífico. Ao longo desse processo, a informação se perde”, destacou.

Para resolver esse problema, a iRancho desenvolveu o SafeBeef, plataforma baseada em blockchain que registra e armazena informações sobre os animais ao longo de toda a cadeia produtiva.

“O diferencial do sistema é a garantia de imutabilidade dos dados. Uma vez registrada, a informação não pode ser alterada, o que gera confiança para quem compra e para quem fiscaliza”, apontou.

A adoção desse tipo de tecnologia ganha relevância em um momento em que diversos mercados ampliam as exigências para a compra de proteína animal. Além das regras ambientais, países importadores passaram a exigir comprovações relacionadas ao uso de medicamentos, bem-estar animal e controle sanitário.

A Europa tem exigências sanitárias cada vez maiores. Outros países seguem o mesmo caminho. É difícil imaginar um futuro em que a rastreabilidade não seja obrigatória para acessar determinados mercados”, avalia Parente.

O executivo cita o Uruguai como exemplo de país que conseguiu transformar a rastreabilidade em diferencial competitivo. “O Uruguai rastreia praticamente todo o seu rebanho e consegue acessar mercados de alto valor agregado. O Brasil produz carne de qualidade, mas muitas vezes não consegue demonstrar isso ao comprador”, comentou.

Apesar dos avanços da pecuária brasileira, a tecnologia ainda está longe de ser realidade para a maioria dos produtores.

“A esmagadora maioria das propriedades ainda não utiliza sistemas avançados de rastreabilidade. O que falta não é qualidade de produção, mas ferramentas que deem visibilidade ao trabalho que está sendo feito”, disse Parente.

Além da rastreabilidade, a empresa também tem investido em inteligência artificial para simplificar a coleta de informações nas fazendas.

Recentemente, a iRancho lançou uma ferramenta de IA que permite registrar informações por comando de voz diretamente no campo, inclusive em locais sem conexão com a internet.

“A coleta de dados é um dos grandes desafios da pecuária. Muitas vezes o trabalhador está manejando um animal pesado e precisa registrar informações ao mesmo tempo. Desenvolvemos uma tecnologia que permite fazer isso por voz, de forma simples e intuitiva”, ressaltou.

Segundo Parizotto, a inovação tem contribuído para aumentar a inclusão digital no campo. “Já tivemos casos de funcionários que não utilizavam o sistema por dificuldade com tecnologia, mas passaram a usar a plataforma quando ela ficou disponível por voz”, informou.

Para o executivo, a combinação entre rastreabilidade, blockchain e inteligência artificial será fundamental para fortalecer a posição da carne brasileira no mercado global.

“O mundo quer comprar proteína brasileira. O nosso desafio é mostrar, de forma transparente, a qualidade do que produzimos”, concluiu.



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