
Houve um tempo em que a Copa do Mundo parava a China. Milhões de torcedores atravessavam a madrugada diante da televisão, acumulavam olheiras durante um mês e transformavam o torneio em um ritual coletivo. Para uma geração de chineses nascidos nas décadas de 1970 e 1980, as Copas marcaram a passagem do tempo tanto quanto aniversários, casamentos ou mudanças de emprego.
Hoje, às vésperas da Copa do Mundo de 2026, o cenário é diferente. A ausência da seleção chinesa na edição de 2026 também contribui para um interesse mais moderado do público, embora especialistas apontem que as mudanças nos hábitos de consumo e a diversificação das opções de entretenimento tenham peso ainda maior.
A mudança ficou evidente nas negociações entre a Fifa e a China Media Group (CMG), estatal responsável pela transmissão do torneio no país. Enquanto os acordos de direitos costumavam ser fechados com muitos meses de antecedência, desta vez o anúncio só ocorreu poucas semanas antes do início da competição. Segundo o “Beijing Daily”, as negociações se prolongaram por causa dos valores pedidos pela Fifa. Ainda segundo o jornal, a Fifa avaliou os direitos de transmissão da Copa do Mundo entre US$ 250 milhões e US$ 300 milhões, patamar que ultrapassava o orçamento da China Media Group e retardou o fechamento do acordo.
A demora expôs uma realidade que talvez fosse impensável duas décadas atrás: a Copa do Mundo continua importante para os chineses, mas já não ocupa o centro absoluto da atenção nacional.
Pesquisas realizadas recentemente na China indicam que grande parte dos torcedores considera excessivos os valores cobrados pelos direitos de transmissão. Mais significativo ainda foi outro dado: muitos chineses concordaram com a ideia de que a Copa do Mundo precisa mais do público chinês do que os chineses precisam da Copa.
A frase pode soar arrogante à primeira vista. Mas ela reflete uma transformação mais profunda da sociedade chinesa. Quando a seleção da China disputou sua única Copa do Mundo, em 2002, o futebol internacional ocupava um espaço privilegiado no imaginário popular. Hoje, o país possui um mercado de entretenimento infinitamente mais diversificado. Séries, plataformas digitais, transmissões ao vivo, videogames, redes sociais e eventos esportivos locais disputam a atenção de uma população conectada como nunca.
Ao mesmo tempo, o futebol deixou de ser consumido apenas pela televisão. Entre os mais jovens, os jogos completos frequentemente dão lugar aos melhores momentos assistidos no celular. Um gol espetacular, uma jogada viral ou a história inspiradora de um atleta circulam pelas redes em segundos e alcançam milhões de pessoas sem a necessidade de acompanhar os noventa minutos de uma partida.
Há também uma mudança curiosa dentro do próprio futebol chinês. Se durante décadas os torcedores voltavam seus olhos para campeonatos realizados na Europa ou para grandes torneios internacionais, hoje muitas cidades descobriram o potencial das competições locais. O sucesso da Liga de Futebol da Cidade de Jiangsu, que transformou partidas amadoras em fenômeno nacional, inspirou iniciativas semelhantes em diversas províncias. Além do esporte, esses campeonatos passaram a movimentar o turismo e as economias locais.
Nas últimas décadas, a China deixou de ser apenas uma enorme audiência para produtos globais e passou a construir seus próprios polos de entretenimento, tecnologia e consumo cultural. O futebol continua presente, mas agora divide espaço com uma oferta de opções que simplesmente não existia para as gerações anteriores.
Quando a bola rolar nos Estados Unidos, Canadá e México em junho, milhões de chineses certamente acompanharão os jogos. A diferença é que, desta vez, a Copa do Mundo será apenas uma entre muitas atrações disponíveis para a segunda maior economia do planeta.