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Há um tempo em que os técnicos de futebol pareciam estar em um universo paralelo ao da moda. Eram homens de prancheta na mão, agasalho do time e expressão fechada. A elegância, quando aparecia, era mero acaso. Hoje, porém, eles entraram no jogo da imagem. E, na Copa do Mundo de 2026, a área técnica vai virar uma espécie de front row esportivo.
Isso porque enquanto os jogadores monopolizam campanhas publicitárias, contratos milionários e editoriais de moda, os treinadores passaram a ocupar um espaço inesperado no imaginário fashion: a roupa da liderança também passou a fazer parte de uma narrativa de comunicação visual e alguns dos técnicos mais comentados do futebol contemporâneo estão sendo observados por suas escolhas de estilo.
Esse movimento começou forte na Copa passada, do Catar, em 2022, quando espanhol Luis Enrique ajudou a popularizar uma elegância despretensiosa baseada em polos bem cortadas, tênis discretos e peças minimalistas; e Didier Deschamps, da França, construiu uma assinatura visual quase tão reconhecível quanto seus títulos: ternos escuros, cortes impecáveis e discrição absoluta.
Na Copa de 2026, dois nomes já andam ilustrando essa questão estética. À frente da seleção brasileira, Carlo Ancelotti leva para a área técnica a elegância clássica italiana que o acompanha há décadas. Seus ternos perfeitamente ajustados, os casacos estruturados e a postura serena transformaram o treinador em uma referência de sofisticação discreta no futebol mundial. Não por acaso, sua imagem parece dialogar com a estética do chamado “quiet luxury”: qualidade, tradição e confiança sem absoluta necessidade de ostentação.
Do outro lado, comandando os Estados Unidos, Mauricio Pochettino representa uma abordagem mais contemporânea. O argentino costuma apostar em peças de alfaiataria menos rígidas, combinadas com polos, malhas finas e jaquetas de linhas limpas, traduzindo um estilo executivo moderno que conversa diretamente com a estética do esporte global. Se Ancelotti remete à elegância atemporal de um gentleman europeu, Pochettino encarna uma sofisticação mais dinâmica, alinhada ao ritmo acelerado do futebol atual.
Futebol X Moda Masculina
O curioso é que essa transformação acompanha uma mudança maior na própria moda masculina. O executivo tradicional deu lugar ao homem que mistura formalidade e conforto. O mesmo aconteceu à beira do campo. As roupas engessadas que dominaram Copas do passado abriram espaço para uma sofisticação mais fluida, capaz de transmitir autoridade sem parecer distante.
A área técnica virou uma vitrine especialmente interessante porque revela diferentes culturas nacionais. Italianos tendem a apostar na alfaiataria. Franceses preferem a elegância contida. Ingleses flertam com o clássico. Já treinadores latino-americanos costumam equilibrar formalidade e proximidade, como se o visual precisasse transmitir liderança sem perder a conexão emocional com o time.
E há ainda uma dimensão psicológica nessa história. Em tempos de comunicação instantânea, a roupa funciona como linguagem. Como assim¿ Um blazer bem cortado, por exemplo, sugere controle. Uma polo de tecido nobre transmite modernidade. Um visual mais casual aproxima. Tudo comunica antes mesmo do apito inicial.
Nas redes sociais, essa leitura visual também se intensificou. Perfis especializados analisam relógios, óculos, tênis e casacos usados durante as partidas – ou seja, o que era bastidor passou a integrar o espetáculo e, não por acaso, já estão sendo observados pelas marcas de luxo com atenção. Se os jogadores representam juventude, velocidade e performance, os treinadores simbolizam experiência, estratégia e maturidade — atributos cada vez mais valorizados por um mercado que busca consumidores além da geração Z.
Carisma e elegância
Para o Brasil, há ainda uma camada simbólica. Durante décadas, a seleção foi associada quase exclusivamente ao brilho dos craques dentro de campo. A chegada de Ancelotti adiciona um novo personagem à narrativa: um técnico cuja imagem desperta interesse muito além da tática. Em uma Copa cada vez mais conectada à cultura pop, ao entretenimento e à moda, o italiano mostra que carisma, experiência e elegância também podem entrar em campo já que nem toda disputa acontece com a bola nos pés. Algumas acontecem à margem do gramado, diante das câmeras, em silêncio – e nesse quesito, também sairão alguns campeões.
