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Faz tempo que a sombra de Donald Trump paira sobre a economia e a política brasileiras. Antes de ser condenado por tentativa de golpe, Jair Bolsonaro tinha a convicção de que o americano impediria o julgamento do caso pelo STF, garantiria sua liberdade e o ajudaria a vencer a eleição de 2026. Deu tudo errado. O capitão foi sentenciado à prisão, perdeu os direitos políticos e lançou seu filho mais velho, Flávio Bolsonaro, para concorrer ao Palácio do Planalto. Farol da direita mundial, Trump até tentou impedir essa derrocada em meados do ano passado, quando anunciou um tarifaço às exportações e aplicou sanções a autoridades do Brasil, mas não foi capaz de salvar o aliado e ainda permitiu ao presidente Lula sair das cordas, impulsionado pelo discurso de defesa da soberania nacional. Desde então, os governantes de Brasil e EUA encenavam flertes em público. O risco de uma tentativa de interferência política parecia afastado, até irromper com tudo a partir de uma série de decisões da administração Trump.

No intervalo de menos de uma semana, o governo dos EUA classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, prometeu aplicar duas novas sobretaxas a produtos brasileiros e retomou a ofensiva contra o Pix, sistema de pagamento instantâneo que virou unanimidade nacional. Essas iniciativas têm o objetivo de defender os interesses dos americanos e ampliar sua área de influência. Já os desdobramentos — se é que existirão, caso Trump não recue, como de praxe — podem ter repercussões importantes na economia, na diplomacia e na segurança pública do Brasil. Foi por isso que a investida trumpista logo passou a dominar o debate eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro. Decisivo no apoio à ditadura militar e secundário em pleitos realizados depois da redemocratização, o fator externo — personificado pelas ações de Trump — está de volta à ribalta.

O debate sobre a possibilidade de ingerência nas eleições brasileiras começou depois da decisão dos Estados Unidos de igualar o PCC e o CV a organizações como o Hamas e a Al-Qaeda. A medida foi anunciada após o presidente americano receber o senador Flávio Bolsonaro na Casa Branca e posar para foto com o convidado. O encontro foi providencial para o Zero Um, que estava nas cordas desde que vieram à tona mensagens e áudios nos quais ele pede uma ajuda financeira de 134 milhões de reais a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, supostamente para financiar uma cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. Com a incursão a Washington, o Zero Um conseguiu substituir uma agenda reconhecidamente negativa por uma potencialmente positiva. “Em dois dias como pré-candidato à Presidência da República, já fizemos mais pela segurança pública do povo brasileiro do que Lula e o PT em vinte anos”, declarou o senador, como se o novo enquadramento das facções, por si só, resolvesse o problema da violência.

Em maio, quando também foi recebido por Trump na Casa Branca, Lula defendeu uma cooperação entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado. Foi uma tentativa de mostrar serviço na área da segurança pública, considerada prioritária pelos eleitores e na qual o petista patina desde o seu primeiro mandato. Recentemente, o presidente patrocinou a aprovação de um projeto no Congresso que endurece as penas contra as facções criminosas, mas ele sempre trabalhou contra a inclusão de PCC e CV na lista de grupos terroristas. Entre outros motivos, por temer intervenções dos Estados Unidos em território brasileiro, além de ações injustificadas contra empresas nacionais. “A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas envolvidos com o crime organizado que pedem a autoridades estrangeiras interferência em assuntos brasileiros”, reagiu o presidente, referindo-se, sem citar explicitamente, à proximidade da família Bolsonaro com o miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, morto em 2020.

Complexa, a questão não se resume à soberania nacional. O histórico de sanções dos Estados Unidos a empresas relacionadas com organizações terroristas mostra que basta à Casa Branca concluir que houve “apoio material”, um conceito bastante vago, para que os problemas comecem a aparecer. Em 2022, uma gigante francesa do ramo de cimento foi condenada a pagar quase 778 milhões de dólares em multa por ter direcionado propina a duas organizações extremistas, incluindo o Estado Islâmico, em troca do direito de operar uma fábrica em Damasco, capital da Síria.
No México, políticos acusados pelos Estados Unidos de ligação com o tráfico de drogas, como o governador de Sinaloa, foram indiciados em território americano e são alvo de pedidos de extradição. No Brasil, investigações da Polícia Federal e da Receita miram fundos de investimento e fintechs suspeitas de atuarem como escoadouro de dinheiro do crime organizado, o que pode levar os Estados Unidos a retaliar empresas e pessoas que negociem com elas. “As companhias terão de aperfeiçoar as suas ferramentas de compliance para verificar se há risco de terem algum vínculo com um faccionado”, afirma David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O tema tem enorme apelo eleitoral, e o termômetro das redes sociais registrou uma leve vantagem para Flávio Bolsonaro nesse assunto. Levantamento da Ativaweb DataLab identificou que, menos de 24 horas depois da divulgação do novo status do PCC e do CV, houve mais de 23 milhões de menções ao fato em diferentes ambientes digitais. Do total, 42,8% foram favoráveis e 38,6% contrárias. Ponto suado para Flávio Bolsonaro.

O senador, no entanto, teve pouco tempo para respirar, já que a administração Trump deu a Lula, mais uma vez, a oportunidade de mostrar trabalho ao anunciar a aplicação de duas sobretaxas às exportações brasileiras que, somadas, podem chegar a 37,5%. A nova rodada de tarifaço foi proposta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos como parte de investigações que tratam, entre outros assuntos, de supostas práticas anticoncorrenciais do Brasil, incluindo o uso do Pix, que prejudicaria as bandeiras de cartão de crédito americanas. Como fez no ano passado, Lula não perdeu tempo e culpou a família Bolsonaro — a quem chamou de “vendilhões da pátria” — pela nova ofensiva contra a economia, os exportadores e os trabalhadores brasileiros. A Flávio Bolsonaro o presidente dedicou as seguintes palavras: “Um imbecil desses não percebe que quem é prejudicado é o povo, não é o Lula”. A estratégia de defesa da soberania permitiu ao presidente recuperar parte da popularidade perdida, no ano passado, após a oposição espalhar nas redes sociais que o governo pretendia taxar o Pix, o que não aconteceu.

Numa reviravolta, o sistema de pagamentos agora virou munição do presidente contra os rivais. Os governistas alegam que Trump pode obrigar instituições financeiras, por meio de ameaças de sanções, a parar de operar com o Pix e culparam o Zero Um pela situação, apresentando como prova o fato de Trump ter publicado um elogio a Flávio Bolsonaro no mesmo dia em que anunciou novas sanções ao Brasil. O Pix é utilizado por mais de 90% da população adulta no Brasil e foi mencionado vinte vezes no comunicado divulgado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos como exemplo de “prática irrazoável”. Esses números superlativos estão à altura de sua importância eleitoral e ajudam a explicar por que Lula e Flávio Bolsonaro posaram para fotos segurando cartazes com elogios ao Pix. Outro levantamento do Ativaweb DataLab mostrou que, poucas horas após o anúncio das sobretaxas, o assunto rendeu 15 milhões de menções no ambiente digital, das quais 78% associando os filhos de Bolsonaro ao tarifaço e aos demais riscos decorrentes da investida dos EUA sobre a economia brasileira.

Para tentar conter danos, o senador, que ganhou dos adversários o epíteto de “Tariflávio”, escreveu uma carta ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, pedindo para que o novo tarifaço não entre em vigor. Ele ainda declarou que as novas sobretaxas só foram anunciadas porque Lula não sabe negociar e não tem entrada de verdade na Casa Branca. “O Brasil pode ter as suas empresas taxadas por causa do presidente da República. Lula xinga os Estados Unidos e ignora as relações comerciais. Ele está priorizando as eleições e está se lixando para o povo brasileiro”, declarou o senador.

As propostas de novos tarifaços ainda dependem de aval expresso do presidente Donald Trump para entrar em vigor. Em tese, o Brasil pode apresentar argumentos para reverter a iniciativa. Isso não significa, de acordo com o ex-embaixador do Brasil em Washington Rubens Barbosa, que haja margem para negociação. “O que vai haver é uma outra apresentação do Brasil procurando rebater e esclarecer as acusações, mas, na verdade, isso é uma política americana para substituir o tarifaço de 2025”, afirma. Juridicamente, a sobretaxa do ano passado era mais frágil, tanto que foi contestada na Justiça, daí a substituição. Analista-chefe da Dharma Politics, Creomar de Souza faz análise parecida com a do embaixador: “Mesmo o discurso de soberania do Lula tem limites, porque ninguém tem a ilusão de que ele vai subir no palanque e declarar guerra com uma arma na mão. O Flávio Bolsonaro também não tem essa influência toda que vende. Independentemente de quem sair vitorioso da eleição, a fatura vai vir com agendas inescapáveis, como o ajuste fiscal e a necessidade de se lidar com uma política externa em termos inéditos”.

A diplomacia, de fato, se tornou um terreno movediço. Interlocutor da família Bolsonaro, Marco Rubio disse numa comissão do Senado dos Estados Unidos que o Brasil não faz parte da lista de países amigos, assim como a Venezuela e a Colômbia. Numa reunião com ministros, Lula reagiu chamando Rubio, que tem ascendência cubana, de “latino-americano frustrado”. É nele que o presidente centra seus ataques, poupando Trump até aqui. A rixa entre as partes pode ganhar um novo capítulo. O secretário de Estado escolheu o deputado estadual pela Flórida Daniel Perez como futuro embaixador do Brasil, cargo que está vago desde janeiro de 2025. Filho de cubanos, como Rubio, Perez é conhecido pela ojeriza a governos de esquerda e pela simpatia que nutre pelo MAGA, o movimento de extrema direita que exalta os Estados Unidos como potência mundial a ser restaurada.

A interferência dos Estados Unidos em eleições e rupturas democráticas na América Latina é conhecida. No Brasil, houve, por exemplo, apoio ao golpe militar de 1964. Nas últimas décadas, no entanto, esse fator externo perdeu peso e relevância. Com sua mania de grandeza, Trump tenta reverter esse processo. Recentemente, ele declarou apoio a candidatos da direita no Canadá, na Austrália e na Hungria que acabaram derrotados. “Os Estados Unidos são um player novo na eleição no Brasil, que por muitos anos desconsiderava a política externa como um elemento relevante para capturar votos”, observa Creomar de Souza. Para Lula e Flávio Bolsonaro, a interferência americana virou um tema inevitável no debate eleitoral. De agora em diante, eles vão ajustar os respectivos discursos em relação às medidas anunciadas de acordo com o interesse de cada um, transformando a política externa numa importante plataforma de campanha. Levando-se em conta o comportamento errático e imprevisível de Trump, está posto o seguinte dilema: será um risco e tanto apostar nele como cabo eleitoral ou mirar as baterias contra o americano em meio à corrida ao Palácio do Planalto.
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998