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“Um azul repleto de calor e profundidade.” Assim o diretor Darren Aronofsky descreveu os olhos de Brendan Fraser. O cineasta buscava alguém carismático para o filme A Baleia, sobre um homem com obesidade mórbida. O ator américo-canadense abraçou o personagem de forma vigorosa — resultando na conquista do Oscar em 2023. Astro de sucessos dos anos 1990 e 2000, o ator foi acometido por uma série de problemas de saúde, físicos e mentais, que o relegaram a trabalhos menores por mais de uma década. Agora, fora desse limbo, ele vem emendando papéis expressivos. É o caso do herói de guerra Dwight D. Eisenhower, vivido por ele no drama Pressão, que chega ao Brasil em setembro. General que se tornaria presidente dos Estados Unidos, Eisenhower estava à frente do Dia D: o ataque de 6 de junho de 1944 que levaria à vitória dos Aliados sobre os nazistas na II Guerra Mundial — data histórica que completa 82 anos neste sábado. Brincalhão e simpático, Fraser falou a VEJA sobre as lições que aprendeu com o militar, o traquejo com a fama e o curioso filme brasileiro que o ajudou a chegar ao Oscar.

O filme Pressão consegue surpreender ao mostrar a tensão secreta entre os militares e os meteorologistas na semana que antecedeu o Dia D. O que achou desse bastidor? Fiquei impressionado. A condição climática é essencial para qualquer estratégia militar. Em 1944, a previsão do tempo combinava uma “média” de registros históricos analógicos e métodos instáveis como balões equipados com transmissores. Para piorar, naquele cenário de guerra, navios meteorológicos eram presas fáceis para os alemães no Atlântico Norte. Tive em mãos uma cópia original do plano completo da operação. Era grosso, como um roteiro de Hollywood. Eles se prepararam para diversos tipos de resultado. Ler aquele documento histórico já com manchas do tempo nos cantos das páginas me fez sentir o peso da responsabilidade daquele dia.

O embate entre ciência e política é um tema atual. O filme colabora para essa discussão? Ideologias em conflito são parte dessa história. Eisenhower e o capitão e meteorologista James Stagg (papel de Andrew Scott) entraram em colisão. Mas eles desenvolveram um enorme respeito um pelo outro. Eisenhower ouviu a ciência, pois se importava com suas tropas. Ele realmente ouvia os especialistas — não os escutava apenas, mas ouvia para se informar e reconhecia o valor de um dado científico. Ele não era um chefe militar com tendências sociopáticas como tantos outros, do tipo que está pronto para sacrificar homens só para marcar território.

Por que acha importante destacar essa diferença entre ele e outros líderes militares? Pois o mundo de fato dependia daquela ação e ela foi feita com muita cautela após um ensaio frustrado cerca de um mês antes — no qual 749 combatentes morreram. O resultado do Dia D foi uma vitória que representou o início do fim da II Guerra. Foi uma ação que alterou o curso da história humana. A missão era claramente acabar com o flagelo da tirania e do fascismo. Se aquele ataque não fosse um sucesso, como estaríamos hoje? Com certeza tudo seria muito diferente caso aquele fim de semana tivesse um resultado ruim.

“Enviar 150 000 combatentes para atacar os nazistas em uma praia na França no Dia D era comparável a dar uma ordem para alguém enfrentar uma motosserra apenas com as mãos”

Sua carreira é repleta de mocinhos e homens de caráter. Por que esse tipo lhe cai bem? Porque fui criado por canadenses (risos).

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Simples assim? Sim. Neste caso, quando o diretor Anthony Meras me apresentou o roteiro de Pressão, adaptado por ele da peça do dramaturgo David Haig, fiquei em dúvida se deveria aceitar. Não entendi por que ele pensou em mim para o papel. A resposta foi: “Porque ele é igualzinho a você. Um cara comum, um bom homem”. Acho que ele falou assim apelando para a minha vaidade, e me convenceu.

Como foi a preparação para o papel? Olhei as fotos do general e pensei: bem, preciso emagrecer um pouco, me barbear, decidir a questão do cabelo — Eisenhower era careca. Mas os papéis que me atraem são aqueles que me tocam. Quis mesmo interpretá-lo quando senti uma conexão pessoal e dolorosa com essa história.

Qual foi essa conexão? Sou pai de três rapazes de 20 e poucos anos, sabe? Minha mente enlouquece só de pensar que, em outra época e lugar, aqueles jovens soldados mortos na II Guerra poderiam facilmente ter sido meus filhos. Imaginei o peso na consciência que Eisenhower carregava antes de dar a ordem de ataque do Dia D, enviando 150 000 combatentes para atacar uma praia no litoral da França dominado por nazistas numa luta comparável a enfrentar uma motosserra apenas com as mãos.

Sua percepção a respeito do general Eisenhower mudou depois de interpretá-lo? Sendo bem honesto, meu conhecimento sobre Eisenhower era limitado até ler o roteiro. Ele era um militar e estrategista. Recebeu diversas promoções ao longo da vida nas Forças Armadas sem nunca disparar um tiro em combate, mas por ter habilidades de liderança notáveis.

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Vivemos hoje em um mundo polarizado e com um aumento preocupante de governos extremistas. Há algo dessa liderança que sente falta nos mandatários atuais? Acho que a habilidade de saber se comunicar e ser um bom ouvinte é algo que falta aos líderes de hoje. Outra coisa, Eisenhower, acima de tudo, era alguém que assumia as responsabilidades por seus atos.

Qual atitude dele mais o impressionou? Tem uma história muito interessante dos bastidores: ele escreveu duas cartas para serem divulgadas após o ataque à Normandia. Na carta da vitória, ele dava o crédito às tropas. Já na carta da derrota, ele assumia totalmente a culpa. Ainda bem, a segunda carta virou artigo histórico. Além disso, ele era, segundo todos os relatos, simplesmente um cara bacana, um tipo que, como já falamos, eu admiro bastante.

De acordo com suas pesquisas para interpretar o papel, de que forma define o estilo de liderança dele? Não esperava isso, mas, depois de pesquisar muito, virei um fã de Eisenhower. Me chamaram atenção as fotos da época, em que ele conversa descontraidamente com os soldados. Registros apontam que eram conversas informais. Ele fazia isso olhando nos olhos daqueles rapazes sabendo da estatística sombria: muitos não voltariam para casa. E os soldados sabiam disso também. Havia uma conexão genuína entre eles.

O que pensa que os conectava? Acho que era um respeito mútuo. Essa é uma lição para todos nós. Respeito é algo conquistado, não imposto. Isso já é uma arma secreta por si só.

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O diretor Darren Aronofsky disse que passou dez anos à procura do ator ideal para o filme A Baleia. Até se deparar com você no trailer do longa 12 Horas Até o Amanhecer, uma coprodução Brasil e Estados Unidos, filmado em São Paulo. Podemos dizer que o Brasil lhe ajudou a ganhar o Oscar de melhor ator? Sim, com certeza! O filme que fiz no Brasil me ajudou a ganhar o Oscar. Serei eternamente grato a vocês e a São Paulo por isso. Também gostaria de agradecer aos criadores da cachaça (risos). Foi uma experiência ótima.

Como foi rodar esse filme no Brasil? Foi interessante, intenso, perigoso. Era um filme noturno, sobre o submundo do tráfico e da prostituição. Trabalhamos todas as noites apenas em locações, ou seja, lugares reais, nada em estúdio. Muitos dos atores e figurantes eram pessoas reais desse universo.

“O filme que fiz no Brasil me ajudou a ganhar o Oscar. Serei eternamente grato a vocês e a São Paulo por isso. Também gostaria de agradecer aos criadores da cachaça. Foi uma experiência ótima”

Que lembranças marcantes ficaram dessa época das filmagens? Amava a textura da cidade, os sons, os cheiros, o ambiente, a receptividade e o café inacreditável. O Brasil tem o melhor café do mundo. E eu amei essa necessidade de aproveitar a vida e o momento. Se alguém sentisse vontade de dançar, dançava. Se estivesse triste, chorava. Mas o mais impressionante é a habilidade dos brasileiros de fazer amizades. Do nada, estranhos viravam amigos imediatamente.

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Teve alguma experiência pessoal marcante neste sentido? Vou contar uma história. Eu tinha um cachorro em casa que precisou ser sacrificado. Recebi a notícia enquanto estava no Brasil e fiquei muito triste. Mas guardei isso para mim, pois precisava filmar a noite toda e cenas pesadas. Tinha um segurança na equipe, um cara enorme, lutador de jiu-jítsu, sério, um sujeito muito grande, maior do que eu, que tenho 1,90 metro de altura. Ele me perguntou se eu estava bem, pois dava pra ver que estava chateado. Contei: “Ah, recebi uma notícia ruim. Meu cachorro morreu”. Em seguida, comecei a chorar. Ele não pensou duas vezes, me abraçou e disse que sentia muito. Nós nem nos conhecíamos. Mas isso não importou. Fiquei emocionado. Aquele momento de empatia é o que o Brasil representa para mim.

Sua carreira em Hollywood começou de forma meteórica, com comédias populares quando tinha 20 e poucos anos de idade. Depois veio um período de escassez, até, enfim, o Oscar. Como analisa essa trajetória de altos e baixos? Nos meus primeiros anos, só me sentia grato e feliz por ter trabalho. É engraçado que, hoje, toda vez que volto para a cidade de Los Angeles, onde fica Hollywood, ela parece diferente, mas de alguma forma continua a mesma em espírito. Olho ao redor e consigo ver imagens fantasmagóricas do que certos lugares já foram. Quase consigo ver a mim mesmo como um fantasma andando por lá. O início da minha carreira foi um período cheio de aspirações, esperança e esforço. Tudo o que vivi, seja o sucesso, seja o caminho tortuoso pelo qual passei, creio que aconteceu como deveria, porque me trouxe até aqui .

Da juventude, quando foi alçado ao posto de símbolo sexual, à maturidade, como analisa o peso da fama em sua carreira? Quer dizer que agora eu não sou mais um símbolo sexual (risos)? Estou brincando com você, está tudo bem. Vou responder do jeito certo. Minha relação com a fama se tornou algo normalizado. Entendi que as celebridades nada mais são do que seres humanos, pessoas, não figuras exaltadas dignas de culto.

Então não admira nenhuma celebridade atualmente? Admiro muitas personalidades famosas que conheço, outras nem tanto, mas o nível de fama de alguém não faz diferença. O que importa é o núcleo do indivíduo, quem ele é de fato por dentro. Hoje a fama não me deslumbra mais.

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998



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