
O futebol brasileiro perdeu João Leiva Campos Filho, o Leivinha, aos 76 anos. Para as novas gerações, talvez um nome em livros de história; para quem o viu desfilar nos gramados da década de 1970, um dos jogadores mais plásticos, inteligentes e letais que o país já produziu.
Meio-campista de origem, mas com letalidade de centroavante, Leivinha foi o motor e o charme da Segunda Academia do Palmeiras.
Dizer que Leivinha tinha 1,75 m de altura parecia um erro de cartório para os zagueiros da época. Sua capacidade de impulsão e o tempo de bola cirúrgico o transformaram em um dos maiores cabeceadores do futebol mundial. Ele subia antes, parava no ar — como se estivesse esperando o cruzamento com paciência — e testava com os olhos abertos, direcionando a bola onde os goleiros jamais alcançariam.
Sua impulsão era tamanha que gerou uma das maiores injustiças e folclores do futebol paulista. Na final do campeonato de 1971, contra o São Paulo, ele subiu de forma tão fulminante para marcar de cabeça que o árbitro Armando Marques, incapaz de processar tamanha velocidade humana, anulou o gol alegando um soco na bola que nunca existiu.
Antes de se tornar divindade alviverde, Leivinha foi a joia da coroa de uma Portuguesa encantadora no final dos anos 1960. No Canindé, ao lado de Ivair, o “Príncipe”, ele refinou a técnica que o levaria ao Palmeiras em 1971.
No Verdão, sob o comando de Osvaldo Brandão, ele vestiu a camisa 8 e formou um quinteto ofensivo que parecia esculpido à mão: Edu Bala, Leivinha, César Maluco, Ademir da Guia e Nei. Enquanto o “Divino” Ademir cadenciava o jogo com a precisão de um relógio suíço, Leivinha era a verticalidade, o elemento surpresa que quebrava as linhas adversárias.
Pelo Palmeiras, foram 267 jogos e 108 gols (uma média impressionante para um jogador de meio-campo); Bicampeão Brasileiro (1972 e 1973), e Bicampeão Paulista (1972 e 1974).
O talento de Leivinha era demasiado grande para ficar restrito às fronteiras brasileiras. Em 1975, após dar um show contra o próprio Real Madrid no Troféu Ramón de Carranza, ele foi contratado pelo Atlético de Madrid.
Na Espanha, ao lado do zagueiro Luís Pereira, Leivinha virou “Don Juan”. Em sua estreia oficial no Vicente Calderón, marcou três gols. Ele foi o cérebro e o artilheiro de um Atlético que peitou o Real Madrid e o Barcelona de Johan Cruyff, conquistando a Copa do Rei (1976) e o Campeonato Espanhol (1977). Até hoje, os colchoneros mais antigos guardam sua fita de gols como relíquia.
Pela Seleção Brasileira, foi titular na Copa do Mundo de 1974 na Alemanha. Se o Brasil não encantou naquele ano, a culpa certamente não foi do futebol vistoso do camisa 8.
Os joelhos, infelizmente, não acompanharam a genialidade de sua mente. Castigado pelas pancadas e pela medicina ainda rudimentar da época, Leivinha encerrou a carreira precocemente aos 29 anos, após uma rápida passagem pelo São Paulo.
Ele nos deixa hoje, mas seu legado permaneceu vivo na história e até no sangue — seu sobrinho, Lucas Leiva, carregou com orgulho o sobrenome e a elegância nos gramados da Europa e da Seleção décadas depois.
O futebol de meias arriadas, de cabeceios de olhos abertos e de saltos que pareciam congelar o tempo perdeu o seu maior bailarino. Fica a saudade e a certeza de que, no andar de cima, a Segunda Academia acaba de ganhar o seu camisa 8 titular.