
Ler Resumo
Fala, pessoas!
Você já parou para pensar que, nesta semana de Corpus Christi, está repetindo uma expressão em latim toda vez que menciona o feriado?
Corpus Christi significa “Corpo de Cristo”. É latim puro e está na boca de todo mundo, no noticiário, no grupo da família, na justificativa do ponto eletrônico.
O latim morreu, essa é a versão oficial. Mas será que é isso mesmo? Essa história é mais interessante do que parece.
Como uma língua “morre”
O latim não desapareceu de uma hora para outra. Com a queda do Império Romano, ele foi se transformando de região para região, até que os dialetos falados nas antigas províncias ficaram irreconhecíveis em relação à língua original. O latim evoluiu e se transformou.
Desses dialetos nasceram o português, o espanhol, o francês, o italiano e o romeno. Se você fala português, você usa uma versão atualizada dele.
O latim clássico também sobreviveu por outros caminhos: foi a língua da ciência e da diplomacia durante toda a Idade Média, é até hoje a língua oficial do Vaticano, e todo nome científico de espécie animal ou vegetal no planeta ainda é escrito em latim.
O que morreu foi o latim como língua materna. O vocabulário, a estrutura, as expressões; esses continuam vivos, escondidos dentro do idioma que você fala todos os dias.
O feriado
Corpus Christi está no calendário brasileiro desde o século XIX. É feriado nacional. Move a economia, esvazia cidades, gera manchetes e a maioria das pessoas nunca soube o que o nome significa.
Isso diz tudo sobre a nossa relação com o latim: usamos sem perceber que estamos usando.
E não é só no nome do feriado. É no vocabulário que consideramos “normal”, “técnico” ou “sofisticado”, sem saber que estamos, na prática, carregando uma língua com mais de dois mil anos de história.
8 expressões latinas que você usa (quase) todo dia
Você não precisa ter estudado latim para reconhecê-las. Elas já fazem parte do seu vocabulário provavelmente desde sempre.
- Per capita: Significa “por cabeça”. Aparece em notícias de economia, saúde pública e educação toda semana e já foi absorvida completamente pelo português.
- Status quo: Literalmente, “o estado em que as coisas estão”. Virou jargão político e corporativo, qualquer telejornal usa ao menos uma vez por dia.
- In loco: Significa “no lugar”. Fiscalização in loco, vistoria in loco, inspeção in loco. Se você trabalha com gestão, saúde ou educação, já escreveu isso em algum relatório.
- A priori / a posteriori: “Antes de” e “depois de”. Nasceram na filosofia, passaram pelo direito e pela medicina e hoje já aparecem em conversas informais sem que ninguém estranhe.
- Grosso modo Literalmente “de modo grosseiro”, no sentido de aproximado, sem entrar em detalhes. “Grosso modo, funciona assim.” Quem nunca disse essa frase numa reunião?
- Ad hoc: Significa “para isso”, algo criado especificamente para uma situação, sem planejamento prévio. Reunião ad hoc, solução ad hoc, comitê ad hoc. O mundo corporativo ama essa expressão.
- Vice-versa: “A ordem invertida”. Tão incorporada ao português que já não parece estrangeira. Mas é latim clássico.
- Curriculum vitae: O famoso CV. Literalmente significa “percurso da vida”. Você envia um para cada processo seletivo e, agora que sabe o que significa, o nome faz muito mais sentido.
Língua não é só gramática, é camada sobre camada de história
O português que você fala hoje é, grosso modo, latim reconfigurado. A estrutura, o vocabulário, a lógica das frases, tudo isso tem raízes diretas num idioma que o mundo oficial considera morto há mais de mil anos. Quando você diz “grosso modo” numa conversa ou assina um “curriculum vitae”, está usando o mesmo idioma que Júlio César usou para registrar suas conquistas militares.
Conhecer a origem das palavras é a diferença entre usar a língua por hábito e usá-la com consciência. Quem entende de onde vem uma expressão sabe quando usá-la, como usá-la e percebe quando ela está sendo usada de forma errada.
Gostou da coluna? Já envia pra quem diz que o latim “morreu”!
Nos vemos na próxima.
Professor Noslen Borges
Revisão textual: Profª. Ma. Glaucia Dissenha