
Um racha partidário profundo atinge atualmente a Democracia Cristã (DC), um partido nanico, sem nenhum representante eleito no Congresso, mas que tem pretensões na corrida presidencial deste ano. O pomo da discórdia é a pré-candidatura só Palácio do Planalto de Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, que fraturou gravemente as fundações do partido e, como mostra reportagem de VEJA, pode naufragar antes de sair do papel.
A notícia sobre a candidatura de Barbosa, que aposentou-se do STF em 2014 e não exerce um cargo público há doze anos, pegou muitos brasileiros de surpresa. O primeiro deles foi Aldo Rebelo, ex-ministro dos governos Lula e Dilma Rousseff, que desde janeiro era o presidenciável oficial dq DC — a troca de candidato foi comunicada pelo presidente nacional do partido, o ex-deputado federal João Caldas, sem discussão prévia com o nome que já estava na corrida há quatro meses.
Inconformado com a mudança, Rebelo dobrou a aposta e decidiu manter sua agenda de campanha, à revelia do comando do DC. “Minha candidatura é um contrato registrado pela palavra. Se for necessário, e espero que não seja, levaremos a questão à Justiça”, diz o ex-ministro a VEJA.
Em retaliação, a executiva nacional do DC abriu na sexta-feira, 21, um processo para expulsar Rebelo do partido. “Aldo não pontua nas pesquisas, é um candidato que está inviabilizado, e a decisão de trocar é minha como presidente”, declarou João Caldas à reportagem.
‘Barbosa representa o que mais detestamos’, diz dirigente do DC em Roraima
Diversos dirigentes da Democracia Cristã, tampouco, foram previamente avisados sobre a troca da pré-candidatura — e não ficaram satisfeitos quando descobriram. “Joaquim Barbosa representa o que mais detestamos: a esquerda e o Supremo. Estamos com Aldo e não abrimos”, diz Paulo Cesar Quartiero, ex-vice-governador de Roraima e presidente estadual do partido.
Ainda no sábado, horas antes do anúncio oficial do novo presidenciável, Quartiero questionou João Caldas pessoalmente sobre a possível chegada de Barbosa, chamando o ex-ministro de “vigarista” e “traidor” e acrescentando que este seria apedrejado pelo partido se desse as caras por lá. Após o desentendimento, ele disse ter sido bloqueado dos grupos online da DC e decidiu retirar sua pré-candidatura ao governo de Roraima.
Outro cacique do partido, o ex-deputado federal Cândido Vaccarezza, que chefia a seção paulista da legenda, chamou de “inapoiável” o nome de Joaquim Barbosa, acusando o ex-magistrado de inaugurar no Brasil o lawfare (aparelhamento do Judiciário para perseguir adversários políticos).
Caldas, por sua vez, sustenta que Barbosa tem apoio unânime no DC (“É o nosso Neymar”) e diz que Quartiero será removido do comando roraimense do partido pela “fala indelicada”. O próprio Joaquim Barbosa, até o momento, ainda não confirmou sua participação na corrida eleitoral, nem comentou o racha por ela provocado — procurado pela reportagem, o ex-ministro não retornou aos pedidos de entrevista.