
Aos 19 anos, a francesa Marylou Mayniel descobriu que não precisava tocar o violoncelo para sempre, e que poderia criar sons dos mais diversos sem sequer sair da frente do computador. Com isso, ela mergulhou na música eletrônica, passou a divulgar o próprio trabalho independentemente, adotou a alcunha “Oklou” — lê-se “okey-lu” — e, em questão de uma década, construiu a própria carreira de popstar internacional. Hoje, aos 33, ela é uma das maiores estrelas da cena alternativa: o disco Choke Enough (2025), cantado em inglês, foi sucesso massivo de crítica e a levou para os palcos do Coachella e do Festival de Cannes antes de trazê-la para o Brasil, onde se apresenta dentro do festival C6 Fest no domingo 24, perante fãs que a tratam com devoção similar àquela voltada para algumas das maiores celebridades do mundo.
O público fiel se formou gradualmente e é apaixonado pelo som suave e futurista da francesa, cujas batidas eletrônicas remetem menos às pistas de dança e mais a momentos de profunda intimidade. A especificidade impressiona não só ouvintes comuns, mas também colaboradoras de uma geração promissora de mulheres com nomes difíceis de soletrar — como a inglesa PinkPantheress, a australiana Ninajirachi e a americana Underscores. Em entrevista a VEJA, Oklou discute como desenvolveu seu estilo, elogia suas colegas e explica por que admite não ser uma “performer nata”, nem a melhor das cantoras:
Seu trabalho musical começou com o violoncelo. Como foi o salto para a música eletrônica experimental? Eu definitivamente diria que a acessibilidade das ferramentas ajudou. Eu não tinha dinheiro aos 19 anos e meu avô decidiu me dar um laptop. Isso mudou tudo. Antes, eu descobri a existência do GarageBand no laptop da minha colega de quarto. Ninguém no meio musical em que cresci me disse que aquilo era possível — que eu poderia me divertir criando música no computador. Ninguém ao meu redor fazia isso, então não tinha referências.
O que a atraiu para esse estilo? Amo a música eletrônica desde muito jovem — e isso não tem explicação, simples assim. Sinceramente, sempre fui apaixonada pela ciência do som, da sonoridade. Acho que uma das razões pelas quais escolhi o violoncelo quando tinha 10 anos é que sempre fui atraída por sons muito suaves, redondos e quentes. O violoncelo é uma forma de criá-los, mas o computador oferece dez vezes mais possibilidades de encontrar esse tipo de som, principalmente com sintetizadores.
Desde então, o som que criou é muito único e desafia rótulos simples. Como descreveria aquilo que tenta alcançar com sua música? É sempre difícil para mim, mas hoje eu diria que faço música pop. Uma vez li que meu trabalho é “pop para insetos”, e me pareceu bastante preciso. Minha música tende a ser suave, mas existe um lado brincalhão nas melodias, ou no fato de que amo integrar instrumentos de sopro. Parece simplista, mas sinto que minha criança interior toma as rédeas quando faço música.
Essa ludicidade me parece algo presente também em colaboradoras suas, como PinkPantheress e Underscores, que priorizam a produção e a instrumentação. Quanto apoio e inspiração você encontrou dentro desse círculo? A inspiração é infinita e está sempre se renovando. É muito bonito testemunhar o sucesso da PinkPantheress, não só pela música, mas pela trajetória. Me dá esperança de que a sociedade é capaz de reconhecer o valor preciosíssimo desse tipo de arte. Como musicista, isso me mostra que devo continuar a confiar no meu caminho. Minha singularidade é o que tenho de mais importante.
Dentro dessa geração, é muito mais comum ver mulheres por trás da produção do que no passado. Você acredita que fazer e distribuir música online realmente quebrou esse paradigma? Acho que sim. É difícil responder porque nunca tentei interagir com o mundo de outra forma além daquela que conheço, que é a internet. O que posso imaginar é que hoje seja diferente por vários motivos. Pelo menos nos últimos dez anos, tem sido muito bom ter contato direto com o público. Tenho minha própria forma de me comunicar nas redes sociais e construir minha base de fãs online. Acho que isso talvez não existisse antes, e hoje é algo muito precioso para os artistas.
O público brasileiro é uma parte enorme dessa esfera digital. Quando você percebeu que tinha ouvintes daqui? Para ser sincera, acho que foi só nos últimos anos, graças aos comentários. Há talvez dois anos, existe uma conta de fãs administrada por brasileiros, pela qual sou muito grata. Devo conhecê-los na viagem. Também sinto que o Brasil tem uma cultura de devoção muito forte e um grande amor pela cultura pop, talvez por conta do meme “come to Brazil”. Estou muito animada para tocar aí pela primeira vez.
Tendo começado a produzir música a sós, no computador, como foi o processo de começar a apresentar shows? A experiência de construir um show foi um processo muito longo para mim. Me apresento desde que me conheço por gente, mas passei muito tempo no palco sentindo que não estava exatamente onde deveria estar. Isso foi principalmente antes do meu primeiro álbum, Galore. Com ele, senti que finalmente comecei a encontrar meu próprio som, e só a partir disso minha presença no palco passou a fazer mais sentido para mim. Não sou uma performer nata. Não nasci para performar. Fico muito feliz tocando minhas músicas, mas carregar um espetáculo é praticamente outro trabalho, separado da criação musical
Por conta disso, preciso de apoio e de uma equipe comigo. Levou tempo até eu e meu pessoal encontrarmos uma fórmula, também porque fazemos tudo de maneira muito independente. Nunca pedi um diretor musical para meus shows. Geralmente escrevo os shows do começo ao fim com a ajuda dos meus músicos. Basicamente, contamos com a ajuda de amigos e família.
Tanto no palco quanto no estúdio, você é muito aberta à modulação digital de sua voz, algo que já foi um grande tabu entre popstars. Por que tomou essa decisão estética? Existem várias razões. A primeira delas é que, antes de descobrir que podia usar autotune, eu já cantava havia muito tempo e era uma cantora razoavelmente boa. Nunca achei que tivesse uma grande voz, mas passei minha vida cantando quando era criança e adolescente. Estive em grupos de harmonia vocal, então já usei muito minha voz na sua versão mais orgânica. O que me levou ao autotune foi, antes de tudo, a simples inspiração. Naquela época, em torno de 2013, acontecia a ascensão do Yung Lean e dos Sad Boys. E não só deles, mas também de artistas como Palmistry e muitos outros nomes underground da Europa e dos Estados Unidos. Eu poderia fazer uma lista enorme de coisas estranhas que estavam surgindo.
Também existiam movimentos como Witch House e o PC Music — e todas essas pessoas usavam autotune. Para mim, foi muito natural imitar o que estava ouvindo, sem questionamento e sem vergonha, até porque achava aquilo muito interessante e bonito. Depois que comecei a usar autotune, nunca mais consegui me separar dele. Ele me permite cantar todas as melodias que estão na minha cabeça, e o que mais me interessa é a melodia, acima de alcançar certas notas ou mostrar grande domínio do meu timbre. Eu realmente não me importo em ser uma boa cantora. Agora, criar grandes melodias… isso sim é a minha praia.
Acompanhe notícias e dicas culturais nos blogs a seguir:
- Tela Plana para novidades da TV e do streaming
- O Som e a Fúria sobre artistas e lançamentos musicais
- Em Cartaz traz dicas de filmes no cinema e no streaming
- Livros para notícias sobre literatura e mercado editorial