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Do direito ao voto à liberdade de trabalhar fora sem a autorização formal do marido — uma exigência que foi abolida no Brasil há meros sessenta anos —, as mulheres têm travado inúmeras batalhas para conquistar seu espaço. É verdade que ainda resta um longo caminho até a justa igualdade com os homens, mas o avanço já provoca mudanças em territórios antes vistos como exclusivamente masculinos. É o caso das aplicações financeiras. Segundo uma recente pesquisa da consultoria americana McKinsey, os investimentos realizados por elas em todo o mundo saltaram de 40 trilhões de dólares para 60 trilhões de 2018 a 2023 — o equivalente a 34% do total de ativos. O estudo aponta que essa fatia pode chegar a 45% até 2030. Além disso, enquanto o patrimônio dos investidores em geral cresceu 43% no período, para 176 trilhões de dólares, a riqueza delas avançou mais: 51%. Esse movimento também ganha força no Brasil. Nos últimos cinco anos, o total de brasileiras que investem em ações aumentou 37%, somando 1,5 milhão de pessoas. Com isso, elas já representam 27% do mercado em número de indivíduos.
A maior inserção das mulheres no mercado de trabalho e as mudanças que as levam a valorizar a autonomia financeira em relação aos parceiros estão entre os fatores que explicam o fenômeno. Veronica Pimentel, que fundou e comanda a gestora Oryx Capital, acompanha de perto essa transformação. “As mulheres querem participar ativamente das decisões que envolvem suas finanças e as da sua família”, diz. Trata-se também de um público mais cuidadoso na hora de investir. Cientes do esforço empenhado na construção de seu patrimônio, elas costumam se informar mais.

Esse saudável hábito criou um mercado próprio — o de cursos. Um exemplo é o curso de pós-graduação criado pela faculdade Belas Artes de São Paulo em parceria com o Grupo praElas e dedicado a promover a autonomia financeira feminina. O conteúdo aborda temas como investimento, planejamento patrimonial e desenvolvimento profissional. “Muitas mulheres já têm independência financeira, mas ainda lhes falta autonomia para decidir”, afirma Patrícia Cardim, CEO da Belas Artes, ao se referir à insegurança manifestada pelas novatas no mundo dos investimentos. Nesse sentido, os cursos ajudam a se desvencilharem das opiniões de terceiros — como o cônjuge — e tomarem suas próprias decisões.
As plataformas digitais criadas exclusivamente para elas também começam a ganhar relevância. É o caso da Fin4She, cuja comunidade já conta com 15 000 investidoras. A ascensão das mulheres pode ainda ser um bom negócio para o mercado, na medida em que elas tendem a aplicar valores maiores e por mais tempo — o que gera mais receitas para as gestoras. Segundo a B3, a bolsa brasileira, na média, as mulheres mantêm 2 900 reais investidos em renda variável, diante de 1 600 reais dos homens. Para Christianne Bariquelli, superintendente de negócios para pessoas físicas da B3, um elemento crucial para atrair as investidoras é o aumento da presença feminina do outro lado do balcão — em bancos, gestoras e corretoras. “Mulheres que ocupam posições no mercado financeiro mostram às demais que todas são capazes de investir”, diz Christianne.
A avaliação é compartilhada por quem já atua no setor e incentiva a ascensão feminina a postos de comando. Na assessoria de investimentos Alocc, cerca de 70% dos funcionários são mulheres — e não se trata de uma política draconiana de cotas. “Os currículos que recebemos são muito bons”, diz Sigrid Guimarães, presidente da companhia. “O processo seletivo se dá por mérito.” A meritocracia também dita as promoções na Rio Bravo, gestora fundada pelo ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco. Ali, as mulheres já viraram o jogo e respondem por 60% do patrimônio administrado — e o caminho não contou com nenhuma colher de chá. “Elas chegaram à liderança porque entregam resultados e construíram trajetórias sólidas dentro da empresa”, diz Vanessa Faleiros, sócia da Rio Bravo. Em breve, a frase “Invista como uma garota” pode virar o novo slogan da força feminina.
Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996
