Investigações da Polícia Civil de São Paulo apontam que os dois homens armados que invadiram e roubaram 13 obras de arte da Biblioteca Mário de Andrade, no centro da capital, em dezembro de 2025, foram antes ao local do crime para identificar os objetos do roubo e mapear o local. Eles fizeram uma espécie de “visita turística” guiada por uma bacharel em direito identificada como Regiane — presa nessa sexta-feira (22/5) no âmbito da Operação Marchand.
Segundo o delegado Ronald Quene Justiniano, do 1º Cerco (Corpo Especial de Repressão ao Crime Organizado), Regiane tinha papel importante na quadrilha, selecionando os locais-alvo e contratando criminosos para executar os “trabalhos”.
No caso específico da Mário de Andrade, ela levou Gabriel Pereira de Mello, o Gargamel, e Felipe dos Santos Fernandes, o Sujinho, à biblioteca. Durante a “visita guiada”, além de reconhecer o local e suas vulnerabilidades, a dupla pôde identificar as obras que interessavam à quadrilha. Atualmente, apenas Gargamel está foragido.
A bacharel em direito, segundo a polícia, também seria responsável por pesquisar itens de valor no mercado, além de intermediar encontros com leiloeiros para eventuais negociações futuras.
Regiane e a dupla de assaltantes foram contratados, de acordo com as investigações, por Laéssio Rodrigues de Oliveira, considerado o maior ladrão de livros raros do Brasil, mentor do roubo milionário.
Laéssio é um velho conhecido da polícia. Em 1998, foi apontado como responsável pelo furto de revistas raras na Fundação Biblioteca Nacional — material avaliado na época em US$ 750 mil.
Nos anos seguintes, Laéssio teria sido também o responsável por furtos em bibliotecas da Universidade de São Paulo (USP), do Museu Nacional e do Palácio do Itamaraty, entre outros. Ele foi tema do documentário Cartas para um ladrão de livros, da Globoplay.
Obras roubadas duas vezes pelo mesmo ladrão
O mesmo Laéssio havia furtado obras de arte da Mário de Andrade entre 2004 e 2006 — era o álbum Jazzz, do artista francês Henri Matisse, considerado o item mais precioso da coleção da biblioteca. Na época do roubo, a obra foi substituída por uma cópia fajuta.
Em 2012, a obra de arte foi recuperada pela Polícia Federal, que a devolveu à Mário de Andrade. Em dezembro de 2025, no entanto, no roubo atribuído à quadrilha de Laéssio, oito gravuras do álbum Jazz voltaram a ser roubadas — e, até agora, não foram localizadas.
Os alvos da Operação Marchand
Além de Regiane, presa nesta sexta-feira, os outros alvos da Operação Marchand são Laéssio Rodrigues e seu marido, Carlos Leandro Ferreira da Silva. O casal já tinha sido press pela Polícia Federal em 20 de abril no Rio de Janeiro e os mandados foram cumpridos nos presídios em que estão detidos.
Também foram expedidos 11 mandados de busca e apreensão para cumprimento em São Paulo, São Bernardo do Campo, Diadema e Rio de Janeiro.
O Metrópoles apurou que duas casas de leilões (uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro) foram alvo da operação. A suspeita é de que as obras roubadas da biblioteca tenham sido vendidas ilegalmente e estejam fora do país.
Durante a operação desta sexta-feira, foram apreendidos obras de arte e um notebook.
