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Quando questionado sobre seus anseios como estilista, Yves Saint Laurent (1936-2008) dava uma resposta enfática: ele gostaria de ter inventado o jeans. Via nele “expressão, modéstia, apelo sexual e simplicidade” — quatro elementos que a moda sempre tentou criar ao longo dos tempos. Talvez o mestre francês da alta-costura já intuísse que chegaria o dia em que a peça nascida como roupa do proletariado seria adotada sem pudor pelo luxo. Pois esse dia chegou. Elemento eterno do vestuário casual, o jeans entrou agora no radar das grandes maisons, que apostam em releituras nas quais, curiosamente, a ideia de um toque humano e despojado nos looks é o ponto chique da coisa.

RÚSTICO - Mineradores no começo do século XX: a peça nasceu como roupa resistente para trabalho pesado
RÚSTICO - Mineradores no começo do século XX: a peça nasceu como roupa resistente para trabalho pesado (Dorothea Lange/Library Of Congress/.)

O jeans aparece em campanhas estreladas por Margot Robbie para a Chanel, em versões que custam entre 2 500 e 3 600 dólares no exterior (algo entre 12 000 e 18 000 reais). A atriz também surgiu na festa pós-Met Gala usando denim com tweed num visual calculado para viralizar: despretensioso, noventista e desejável. Dias depois, Demi Moore levou o denim para Cannes em look da Gucci, cujas versões premium da peça variam entre 800 e 1 000 dólares.

O recado é claro: o jeans deixou de ser apenas casual para também virar símbolo de status. Essa transformação vem se delineando há alguns anos. Em 2022, a Bottega Veneta esgotou em semanas uma calça que parecia jeans, mas era feita de couro e vendida por cerca de 6 900 dólares. Depois vieram versões da Valentino, Balenciaga, Dior e Brunello Cucinelli. O curioso é que, visualmente, muitos desses modelos pouco diferem das calças retas e minimalistas encontradas em marcas muito mais acessíveis.

TAPETE VERMELHO - Demi Moore de Gucci no Festival de Cannes: casualidade virou glamour contemporâneo
TAPETE VERMELHO - Demi Moore de Gucci no Festival de Cannes: casualidade virou glamour contemporâneo (Jacopo Raule/GC Images/Getty Images)
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O que muda agora são detalhes como o corte perfeito, a lavagem exata — e, sobretudo, a narrativa cultural que acompanha a peça. “Há hoje uma aproximação entre luxo e casualidade”, diz Karsten Koehler, executivo chefe da Levi’s Brasil. “O desejo não está no excesso, mas em peças versáteis, atemporais e cheias de significado.” Segundo ele, o jeans atravessou décadas porque virou símbolo de identidade. Já foi emblema da rebeldia nos anos 1950, com James Dean e Marlon Brando, ganhou sensualidade com Marilyn Monroe, passou pela contracultura hippie e punk e chegou à realeza nos anos 1990 nos looks relaxados da princesa Diana.

MAIS ACESSÍVEL - Modelos da JW Anderson para a rede Uniqlo: parceria traz preços menores, entre 250 e 350 reais
MAIS ACESSÍVEL - Modelos da JW Anderson para a rede Uniqlo: parceria traz preços menores, entre 250 e 350 reais (UNIQLO and JW ANDERSON/.)

Mas a história começou bem antes disso. Patenteado em 1873 por Levi Strauss e Jacob Davis, o jeans foi criado para o trabalho pesado dos mineradores americanos. O tecido denim, resistente e reforçado por rebites de cobre, tinha vocação prática — não fashion. Um século e meio depois, tornou-se talvez o maior paradoxo da indústria do luxo: uma peça democrática convertida em item aspiracional, com preços que fazem da antiga roupa de operário um artigo de coleção.

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A pergunta crucial: há diferença entre um jeans de 300 reais e um de 18 000? Às vezes, sim. “O aperfeiçoamento de técnicas, acabamentos, tecidos e lavagens define o preço”, diz Adriana Bozon, diretora criativa da Ellus. Denim artesanal, modelagem precisa e processos manuais explicam, em parte, os valores. Mas, na prática, o consumidor médio mal consegue distinguir um modelo premium de outro muito mais barato. E talvez isso nem importe mesmo. A campanha da Chanel com Margot Robbie não vende só a calça, mas uma ideia de vida: a mulher que sai de um evento milionário parecendo apenas ter vestido “o jeans perfeito”. Ao mesmo tempo, colaborações acessíveis como a da JW Anderson para a rede Uniqlo provam que a calça do desejo também pode custar pouco, cerca de 350 reais.

EMBLEMÁTICO - Princesa Diana (à esq.) e Marilyn Monroe: entre a quebra de protocolos e a pegada sexy
EMBLEMÁTICO - Princesa Diana (à esq.) e Marilyn Monroe: entre a quebra de protocolos e a pegada sexy (Tim Graham/Getty Images; Landmark Media/Alamy/Fotoarena/.)

Há ainda um fator emocional poderoso. Em tempos de excesso visual, o jeans funciona como território seguro. Familiar, confortável, afetivo. “É uma peça necessária para o guarda-­roupa”, resume Adriana. Caro ou barato, um bom jeans sempre vale ouro.

Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996



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