Ler Resumo
Para os brasileiros que assistiram pela TV aos julgamentos do mensalão, no Supremo Tribunal Federal, a figura do ex-ministro Joaquim Barbosa é indissociável do combate à corrupção. Em 17 de dezembro de 2012, após mais de cinco anos de tramitação da ação penal, foi ele o responsável pelo relatório que levou à condenação de 25 acusados pelo esquema de pagamento de propinas abastecido pelo Planalto — incluindo aliados do presidente Lula (que o indicara ao cargo), como os petistas José Dirceu, Delúbio Soares e José Genoino, além de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, e Roberto Jefferson, então dirigente do PTB. Barbosa se aposentou em 2014, aos 59 anos (onze deles na Corte), mas jamais deixou de carregar a aura de símbolo na luta contra os malfeitos com dinheiro público. Há poucos dias, o recluso ex-magistrado reapareceu no noticiário como um provável candidato à Presidência da República, algo que já ensaiou em 2018 e 2022 — e depois recuou. Desta vez, reentra na cena eleitoral no momento em que a corrupção volta com tudo à agenda eleitoral, embalada pelos escândalos recentes envolvendo o Banco Master e as fraudes no INSS.

O novo voo de Barbosa não começou de forma tranquila. O seu nome foi anunciado pela Democracia Cristã, uma sigla que não tem representantes no Congresso, mas tinha desde janeiro um presidenciável em campanha: o ex-ministro Aldo Rebelo. Surpreendido, ele diz que a pré-candidatura está mantida e que pode batalhar por ela na Justiça contra a DC — em retaliação, o partido abriu um processo para expulsá-lo de seus quadros. Rebelo não foi o único a demonstrar irritação com o anúncio da troca de candidato, feito pelo cacique maior da sigla, o ex-deputado João Caldas, no sábado 16, sem consulta prévia aos dirigentes estaduais. “Barbosa representa o que mais detestamos: a esquerda e o Supremo”, diz Paulo Cesar Quartiero, presidente da DC em Roraima e ex-vice-governador do estado entre 2015 e 2018, que retirou a pré-candidatura ao governo. “Trocar um nacionalista e defensor da Amazônia por um oportunista, ideológico de esquerda, é inaceitável”, afirmou em comunicado. O presidente da seção paulista da legenda, o ex-deputado federal Cândido Vaccarezza, disse que a candidatura de Barbosa é “inapoiável”. “Ele começou o lawfare (uso da lei para perseguir adversários políticos ou ideológicos) no Brasil, não tem compromisso com a democracia nem experiência política. Não podemos entregar o Brasil para um personagem como esse”, disse Vaccarezza, que foi preso pela Lava-Jato em 2017 sob suspeita de envolvimento em fraudes na Petrobras.
A justificativa oficial de Caldas para a substituição é que a candidatura de Rebelo não decolou. De fato, o presidenciável não fez 1 ponto percentual sequer nas pesquisas Genial/Quaest e AltasIntel/Bloomberg divulgadas nos últimos dias. “A eleição nem começou. Pesquisas podem mudar e candidaturas você pode construir. O que não dá para criar é biografia”, diz Rebelo, que foi ministro de quatro pastas diferentes nos governos Lula e Dilma Rousseff e presidiu a Câmara dos Deputados entre 2005 e 2007.

Apesar do ruidoso anúncio pela DC, a participação de Barbosa na corrida ao Planalto é bastante incerta. Primeiro, porque ele próprio não trata isso como uma certeza. Ao jornal Folha de S.Paulo, disse que sua entrada no páreo só ocorrerá “se forem preenchidas algumas condições”, entre elas “sentir boa receptividade”, o que não ocorreu no partido ao qual se filiou em abril. Além disso, há o histórico de Barbosa. O ex-presidente do STF, que nunca disputou um cargo eletivo, filiou-se ao PSB em 2018 e chegou a ser cotado como presidenciável nas duas últimas eleições, mas desistiu sem sequer começar a campanha. Para Eduardo Grin, cientista político da FGV-SP, a falta de verba e capilaridade da DC, que também não tem direito a tempo de rádio e TV, tornaria a candidatura muito difícil de prosperar. “O projeto é um balão de ensaio, uma estratégia da DC para puxar votos para os deputados federais, superar a cláusula de barreira e receber recursos dos fundos partidário e eleitoral”, avalia.

Além disso, a empreitada poderia afetar negativamente a imagem de um magistrado que deixou a Corte reconhecido pelo comprometimento contra a corrupção. Também pode obrigá-lo a deixar os negócios na iniciativa privada. Em seu site, ele se apresenta como prestador de serviço de “advocacia consultiva” nas áreas tributária, constitucional, de compliance, regulatória, administrativa e penal. O ex-ministro tem um escritório na Asa Norte, em Brasília, e outro em um prédio de alto padrão no Brooklin, na Zona Sul de São Paulo. Procurado por VEJA, ele não retornou os pedidos de entrevista.

A estratégia eleitoral da DC não é descolada da realidade. Pelo contrário: o discurso de combate à corrupção tem histórico comprovado de sucesso junto à população, e a escolha de um magistrado como Barbosa tem forte apelo, especialmente entre o eleitorado à direita. Foi esse o carro-chefe que rendeu 1,9 milhão de votos e uma vaga no Senado a Sergio Moro (PL), responsável pela prisão de Lula em 2018. É nessa toada que o ex-juiz lidera as pesquisas ao governo do Paraná em 2026 — seu aliado na Lava-Jato, o ex-procurador Deltan Dallagnol (Novo) é favorito a ser senador pelo estado. Os escândalos recentes mantêm a corrupção no radar do debate público: é a segunda maior preocupação dos eleitores, segundo a Genial/Quaest, e um dos pontos frágeis na avaliação do governo Lula, de acordo com o Datafolha (veja o quadro).

Apesar de Flávio Bolsonaro (PL) ser hoje o presidenciável mais acossado pelo assunto, em razão das revelações do caso Master, a entrada do algoz do mensalão na disputa traria de volta ao debate eleitoral velhos pesadelos do PT — de resto, a sigla também está longe de se dizer livre dos estilhaços dos casos em andamento. Para Ana Claudia Santano, diretora-executiva da Transparência Eleitoral Brasil, a sucessão de escândalos gera o aumento do ceticismo do eleitorado em relação a candidatos que dizem que lutarão contra a chaga do mau uso do dinheiro público. “Os mesmos atores que prometeram avanços contra a corrupção cometeram crimes extremamente graves. O Brasil vive uma grande carência de estadistas que tragam essa agenda com seriedade e honestidade”, diz. É nesse cenário que surge no tabuleiro o nome de Barbosa, que tem como trunfos a ficha limpa e o histórico de levar corruptos não só para o banco dos réus, mas para a cadeia. A ver se o tema será suficiente para fazer deslanchar sua pretensão presidencial — e se, desta vez, o ex-ministro vai mesmo para a disputa.
Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996