Ler Resumo
O início do século XX trouxe reviravoltas nas artes encabeçadas por uma turma que queria se desviar do convencional. Foi em meio a essa atmosfera de elevada inquietação que Henri Matisse sacudiu o Salão de Outono, prestigiado evento que reunia artistas de toda a parte em Paris, com a tela Mulher com Chapéu, em que pintou a esposa com cores puras e brilhantes, sem as misturas suaves dos impressionistas nem tampouco compromisso com o realismo da figura. Não deu outra: foi um escândalo daqueles. E o impiedoso crítico Louis Vauxcelles não perdoou. “Vi um Donatello entre as feras”, disparou, referindo-se a uma única escultura de espírito renascentista (daí a alusão ao escultor florentino) que estava ali cercada não apenas da “ultrajante” obra de Matisse, como da de outros que à época subvertiam os pincéis — segundo ele, os fauves (as feras, em francês). Acabou o próprio crítico batizando o movimento que emergia em tais paredes: o fauvismo, capitaneado por um Matisse em plena efervescência criativa, aos 36 anos.
Eis que as décadas passaram, e o mestre francês descobriu um câncer abdominal. Submeteu-se então a uma ultra-arriscada cirurgia à qual sobreviveu, apesar das baixas chances, mas com sequelas. Tinha 71 anos e precisou se habituar às dores e limitações motoras que o levaram à cadeira de rodas. Foi aí que a todos surpreendeu: ele não só não entregou os pontos, como encontrou forças para se reinventar de forma admirável ao trazer à cena um modo diferente de fazer arte, que influenciaria os que vieram depois, tornando-se um contundente exemplo de como os naturais obstáculos embutidos na passagem do tempo podem ser vencidos à base de persistência e da incessante busca pelo novo.

Pois mesmo diante do declínio físico, um dos mais importantes pintores da era moderna arranjou motivação para desenvolver, com tesoura e papel, uma técnica inédita: os gouaches découpées (guaches recortados), que produzia sem precisar se pôr de pé — tema da maior exposição já realizada sobre esse profícuo período de sua trajetória, em cartaz até 26 de julho sob a bela cúpula do parisiense Grand Palais. “Com seus lindos recortes, ele revela que há uma espécie de felicidade só possível de ser alcançada após um período de sofrimento e a certa altura da vida, com maior maturidade”, disse a VEJA Claudine Grammont, curadora da exibição.
A mostra Matisse 1941-1954, um passeio por mais de 300 obras do artista (incluindo, além das famosas colagens, também livros ilustrados, produções têxteis e vitrais), foi resultado de um gigantesco esforço para reunir peças espalhadas por coleções particulares e museus mundo afora. A ideia é conferir ao visitante a sensação de estar em pleno ateliê do pintor, reproduzido graças à fartura de fotos, onde ganham destaque relevantes produções da última década de sua saga criativa — composições compiladas no livro Jazz, de 1947, e os quatro Nus Azuis, de 1952, entre outros. Sentado, ele se punha a pincelar com tinta guache e, em seguida, cortava as folhas como bem entendia, sem se aferrar à precisão. Corpos humanos, animais variados e figuras abstratas — tudo era mais tarde colado na superfície das telas com a ajuda de assistentes. Seu interesse, no entanto, extrapolava as formas. “O importante para Matisse era explorar a pureza da cor”, explica Felipe Martinez, especialista em história da arte.

A produção mais tardia do artista é essencialmente guiada por um desprendimento que, apenas com o passar dos anos, ele enfim reconheceu em si. “Precisei de todo esse tempo para chegar ao ponto em que posso dizer o que quero. Somente o que criei depois da doença constitui meu verdadeiro eu: livre, liberto”, declarou ele, que se permitiu ousar, correndo o risco de que lhe torcessem o nariz por trocar a valorizada tinta a óleo por uma reles tesoura. A superação das incertezas da juventude e a chegada a uma etapa na qual já se experimentou de tudo um pouco podem servir de poderoso combustível à inventividade humana, como reforça a biografia de Matisse. Mas nem de longe ele foi o único a voar alto ao dar-se conta de que o tempo se esvaía. “A velhice trouxe a muitos artistas a consciência de que era fundamental aproveitar os anos que lhes restavam, e eles colocaram a criatividade à prova até o fim”, observa Ana Cavalcanti, da Escola de Belas Artes da UFRJ.
Essa turma longeva saiu ganhando ao ter a chance de se testar em diferentes técnicas e estilos, mantendo-se em cena por toda a vida. Os últimos anos de Rembrandt (1606-1669), o genial expoente da chamada Idade de Ouro na Holanda, embora sofrendo com a perda recente de um filho e enredado em dívidas, foram marcados por interpretações inovadoras de temas tradicionais e por um olhar comovente sobre si mesmo. Nos autorretratos dessa etapa, ele expôs com luz única a própria decadência, um contraste às imagens do bem-sucedido jovem de antes. Na vez do francês Claude Monet (1840-1926), com a visão comprometida por uma catarata, as formas que enxergava difusas eram pintadas em grandes telas de maneira mais soltas, nas quais suas famosas ninfeias se confundiam com a paisagem e o horizonte desaparecia. E assim o grande impressionista tomou uma rota de maior abstração, vista como prenúncio do expressionismo, que viria a chacoalhar tudo de novo. Morto aos 84 anos, Matisse sintetizou o que ele e seus colegas de tão intensas tintas experimentaram em idade avançada: “Foi uma segunda existência”. A humanidade agradece.
Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996