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Aos 19 anos, a francesa Marylou Maniel descobriu outro jeito de criar música para além do violoncelo que tocava desde a infância: não se tratava de um novo instrumento, mas sim do software gratuito GarageBand em seu computador. “Ninguém tinha me falado que aquilo era possível”, relembrou ela em entrevista a VEJA. “As cordas emitem sons suaves e quentes, enquanto o PC oferece dez vezes mais opções de sonoridade.” Hoje, aos 33 anos, ela adota o nome artístico Oklou — lê-se “okey lu” — e redobra a aposta na música eletrônica onírica entrecortada por instrumentos de sopro, gênero que ela chama de “pop para insetos”. Os humanos, quem diria, também gostam: o terceiro álbum da cantora, Choke Enough, foi um sucesso de crítica no ano passado, saiu da bolha alternativa para conquistar milhões de novos ouvintes — e deu a ela espaço em festivais refinados, como o paulistano C6 Fest, onde se apresenta no domingo 24.

Oklou reforça um movimento batizado de hyperpop, que vai na contramão dos padrões da indústria musical: mesmo dominado por mulheres, como Taylor Swift e Katy Perry, o pop conta com diversos e talentosos produtores homens nos estúdios, além de uma forte influência das gravadoras, fazendo com que muito do que existe no gênero atual seja pasteurizado e sem personalidade. Não é o caso dessas novas estrelas: longe de serem insossas, elas são superlativas, donas de sons eletrônicos intrincados e difíceis de definir — resultado do autodidatismo e de referências variadas —, exibem visuais marcantes e nomes difíceis de soletrar. A mais bem-sucedida até aqui é a inglesa PinkPantheress, 25 anos, que soma 1,1 bilhão de reproduções no YouTube. Outras representantes em ascensão são a americana Slayyyter, 29, e a australiana Ninajirachi, 26. A primeira, natural do Missouri, satiriza a ideia do caipira dos Estados Unidos, contrastando o visual country sexualizado com canções futuristas. Já Ninajirachi — que se inspirou em um Pokémon para criar a alcunha peculiar — aposta em um som que vai do atmosférico ao frenético.
Enquanto oferecem o frescor da novidade, essas jovens também bebem do legado de nomes como Kate Bush e Björk, além de, mais recentemente, a popstar Charli XCX. Para Oklou, é um prazer testemunhar esse empoderamento “diferentão”. “Tudo o que tenho é meu som e minha singularidade”, diz. Para elas, hyperpop rima com autonomia e liberdade.
Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996